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Milagres e "Milagres"

04/03/2010



A propósito convém começar por esclarecer o que é milagre no sentido teológico da palavra. Milagre não é um show da Onipotência Divina, feito para extasiar os homens. Todo milagre é, antes, um sinal (semeion), como diz São João (ver Jo 2,11.23;6,26;11,15.42...). É sinal de uma intervenção divina em resposta e uma situação difícil ou perplexa por que passam os homens; o milagre é, pois, uma palavra ou um discurso de Deus, que quer responder aos homens de maneira mais eloquente e sensível ou persuasiva. Eis por que se requer o preenchimento de três condições para se poder falar de milagre:


1) trata-se de um fato histórico, real, devidamente atestado. Muitas das “histórias” de milagre não são senão narrações fantasiosas, em cuja origem nada há de realmente extraordinário;
2) ... seja um fato real totalmente inexplicável pela ciência. Isto implica que o fato seja submetido ao exame de médicos e cientistas de qualquer corrente religiosa; caso julguem que o fato pode ser explicado, de algum modo, pela ciência, já não se pode mais falar de milagres;
3) ...o fato real e inexplicável pela ciência deve ter ocorrido num contexto digno de Deus, sem procura de lucro comercial, sem charlatanismo, vã glória etc.

Caso se preencham essas três condições – e somente então – se pode apregoar um milagre propriamente dito.

Tais fatos ocorrem – e ocorrem com relativa frequência – na Igreja Católica em nossos dias. Basta tomar conhecimento dos processos realizados para a Beatificação ou Canonização de um(a) servo(a) de Deus para se concluir que, de fato, existem curas e acontecimentos semelhantes, que a ciência não explica; só podem ter acontecido como resposta de Deus à oração dos seus fieis, a fim de atestar ou comprovar a heroicidade de virtudes do(a) servo(a) de Deus. Em Lourdes, também ocorrem milagres notáveis, criteriosamente reconhecidos por médicos (religiosos ou ateus).

Fatos aparentemente portentosos

Ao contrário, no protestantismo não existem milagres no sentido exposto. O que ocorre nas igrejas dos crentes pentecostais são fatos portentosos ou aparentemente portentosos, devidos à sugestão provocada pelos pastores e pelo ambiente. Muitas pessoas se dizem “curadas” no culto protestante, porque se sentem eufóricas e entusiasmadas; mas não são submetidas a judiciosos e repetidos exames médicos, para averiguar se houve realmente a cura e se esta foi duradoura ou definitiva.

O que se dá entre os crentes, muitas vezes, é uma modalidade de curandeirismo muito perigosa: o paciente julga estar curado, interrompe o tratamento médico (joga fora os remédios, os óculos, as muletas...), mas a doença continua latente; cedo ou tarde irrompe de novo e com mais virulência, tornando-se mais difícil a cura. Por isso, os “milagres” das assembleias de crentes podem ser nocivos aos pacientes.

Notemos, porém, que há dois tipos de doenças: a) as doenças orgânicas, devidas a uma lesão do organismo, como o câncer, a cegueira por perda de um nervo ótico etc; e b) as doenças funcionais, decorrentes principalmente de um bloqueio psicológico, que impede o organismo de funcionar bem (tais como a asma, os eczemas, as verrugas, a tuberculose, a úlcera estomacal...).

Ora, as doenças funcionais podem ser curadas pelo desbloqueio psicológico do paciente: a palavra de um pastor, o “exorcismo” ou o ritual aplicados ou o chá, a “benzeção” de um curandeiro podem contribuir para suscitar confiança, entusiasmo e recuperação psicológica do paciente. Este, então, pode ter sido curado, pois a sua doença sendo devida a um bloqueio psicológico, o desbloqueio a removeu. O mesmo não se dá com as doenças orgânicas (câncer, fraturas ósseas etc).

Placebos: cura por sugestão

Ainda a propósito de sugestão e desbloqueio, podemos lembrar os “placebos” (=agradarei). São aparentes remédios, como água, um pó de farinha, uma bala, que o paciente toma por ordem médica, como se fossem verdadeiros medicamentos. Em muitos casos (cada vez mais comprovados), verifica-se que dão resultado muito positivo, causando alívio ou cura do consumidor; atuam unicamente na base da sugestão. Assim, por exemplo, os soporíferos (remédios para dormir) causam dependência crescente; para se livrar deles, o médico ou a enfermeira podem dar ao paciente um pó branco bem apresentado ou uma bala (que pareça um comprimido), e se verá que a pessoa dormirá tão bem quanto no caso de tomar remédio.

Também se conta o caso de um sanatório em que os pacientes tuberculosos estavam desanimados por não sentirem progresso na cura. O médico da instituição resolveu, então, dizer aos enfermos que fora descoberto um novo remédio, de lata eficácia, para curar a tuberculose, e que iria aplicá-lo a cada um para provocar sua rápida recuperação. Dito isto, deu a cada paciente uma injeção de água. Os doentes, julgando-se poderosamente ativados por esse novo remédio, começaram a comer melhor, a dormir melhor, a respirar melhor, e consequentemente foram-se recuperando. O efeito positivo se devia unicamente à sugestão e ao desbloqueio provocado pela sugestão.

Essas observações nos chamam a atenção para a necessidade de não apregoarmos milagres a torto e a direito. Os milagres ocorrem, sem dúvida; ocorrem certamente na Igreja Católica, mas não se dão como os crentes imaginam, ou seja, em sessões de culto para as quais o pastor promete uma “chuva de milagres”. Essas promessas são abusivas, pois nenhum homem pode prometer milagres (só Deus os faz, e os faz como e quando quer); o homem pode, sim, prometer algo que funcionará como sugestão e desbloqueio e poderá fazer bem ao paciente. Essa terapia, porém, por via de sugestão, pode ser exercida também por um curandeiro, um pai-de-santo ou um psicólogo profissional qualificado (que saberá usar de recursos científicos mais adequadamente do que um pastor ou um curandeiro).

Vemos assim, que, em se tratando de “milagres”, a Igreja Católica não pode concorrer com as assembleias de crentes, pois existe no catolicismo uma certa reserva diante de tudo que se poderia chamar de “apelação” ou recurso a gestos que provoquem os sentimentos e as emoções, sem o controle da razão e das verdades da fé. O culto católico, que culmina na celebração da Santa Eucaristia, supõe uma certa formação doutrinária da parte dos fieis, e toca as fibras mais profundas do coração humano. O católico crê que é licito pedir milagres a Deus, mas sabe que não há receita para os obter de modo mágico ou quase mágico; a oração humilde e filial é a grande arma do católico, e a sua eficácia está baseada no fato de que Deus é o Amor primeiro, que nos ama gratuitamente e jamais abandona os seus filhos.

É de se desejar que os católicos tenham viva consciência disto, vivam conscientemente a Santa Missa e entreguem confiantes a Deus os seus anseios. Assim não serão confundidos!

Perguntará alguém: como discernir, nos grupos de oração carismáticos, os autênticos milagres dos fenômenos meramente psicológicos?
A tendência da Igreja, nesses casos, é procurar, primeiramente, explicações naturais. Portanto, diante de um portento, não se deve logo proclamar milagre; somente quando não há explicação natural é que podemos pensar em uma graça extraordinária de Deus. Além disso, apliquemos o famoso critério do Evangelho: “Pelos frutos se conhece a árvore” (Mt 7,20). Os autênticos dons do Espírito Santo são associados às virtudes (humildade, caridade, simplicidade, austeridade de vida...). Ao contrário, os fenômenos meramente naturais estão, por vezes, associados a atitudes doentias, nervosas ou à presunção, à vã glória, à cobiça desregrada...

Em suma, será necessário examinar caso por caso, pois tanto o psiquismo humano quanto a ação do Espírito Santo são coisas muito complexas, que requerem o dom do discernimento para não cairmos em graves erros. Este dom não falta a quem o pede.




Estêvão Tavares Bettencourt

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