Os mortos falam aos vivos?
28/07/2010
A psicofonia é o fenômeno de vozes misteriosas que a crença popular costuma atribuir ao além, como se os mortos se comunicassem com os vivos mediante linguagem humana. Muitas vezes essas vozes são gravadas em fitas magnéticas, de modo que se tornam célebres, percorrendo o mundo, o corroboram no público a crença de que os defuntos se manifestam por tal via.
Tais vozes têm características importantes:
- em alguns casos, são roucas a princípio, tornando-se pouco a pouco compreensíveis;
- aludem umas às outras, às vezes se contradizendo;
- às vezes se assemelham a suspiros, gemidos, grunhidos, chiados, dando a impressão de não serem articuladas pela garganta humana;
-os dizeres dessas vozes são irrelevantes; nunca trouxeram contribuição alguma para solução dos problemas da ciência ou da vida dos homens em geral. Não raro se trata de frases incompletas, evasivas; fazem, por vezes, alusões às pessoas presentes a aos seus problemas. Ou exprimem ameaças de castigos e catástrofes, ou formulam críticas e censuras de todo tipo contra os habitantes da Terra.
Consolo do além
Muitas pessoas se entusiasmam com este fenômeno, julgando que podem falar com entes falecidos há anos, o que é muito consolador. Dizem que já conseguiram mensagens do Irmão Asterin, do planeta Vênus; do grande mestre Kalen Li, do planeta Kangor; do guia espiritual do universo, o Irmão Mestre Karjan, do planeta Korendor; do Mestre Espiritual Lingol... Tem-se a impressão, através dessas mensagens, de que os “desencarnados” vivem no além uma vida semelhante à da Terra, com suas casas, suas ruas, cidades...
No Brasil, a escritora e poetisa Hilda Hirat, de Campinas, Estado de São Paulo, impressionada por obras referentes à psicofonia, diz ter feito experiências desta arte, as quais ela assim descreve: “Durante muito tempo nada aconteceu. Até que um dia apareceu a expressão: ‘Que lindo dia!’ Aos poucos, as gravações, que eram obscuras e muito difíceis de entender, foram melhorando, tanto que captei uma frase em francês enquanto meu aparelho estava acoplado à FM, sintonizando a Rádio Eldorado. Ao escutar a gravação da fita, uma surpresa: uma frase bastante longa em francês: ‘Dans ce roman (nous eumes ou n’osez) des petits fils! Chante notre ami’ (Isto quer dizer: “Nesse romance (tivemos ou não ouseis) netinhos. Canta o nosso amigo”). Interpretei a frase como sendo um recado pessoal para mim, já que as expressões ‘Dans ce roman’ e ‘petits fils’ têm para mim significados importantes, relacionados com experiências íntimas” (transcrito do livro de José Lorenzatto, Parapsicologia e Religião – Ed. Loyola, 1979, pág. 90).
A simples leitura deste relato bem mostra o quanto ele tem de subjetivo e confuso.
De resto, as mensagens psicofônicas, às vezes, carecem de construção gramatical; as palavras que as compõem são de línguas diferentes – “cp, ete,os” – e são cometidos os mesmos erros de linguagem do próprio médium ou receptor. Os mortos aí dizem pilhérias ridículas, comprazendo-se em trocadilhos pueris e expressões de inteligência medíocre.
Qual seria a explicação do fenômeno?
Fale a parapsicologia
As experiências de psicologia e parapsicologia explicam satisfatoriamente o fenômeno da psicofonia, sem necessidade de recurso a algum espírito do além.
Com efeito, a ciência nos diz que a psicofonia é produto de ventriloquia ou de linguagem proferida a partir das entranhas do sujeito (Pode-se definir o ventríloquo como aquele que sabe falar sem abrir a boca e mudando de tal modo a voz que parece sair de outra fonte que não ele). Essa ventriloquia pode ser efetuada por um médium em circunstâncias diversas:
- de maneira consciente. Temos então grandes embusteiros ou trapaceiros. Para mais iludir os ouvintes, alguns médiuns usam de trombetas, através das quais eles afirmam que os mortos falam; além disso, só trabalham em salões escuros ou semi-escuros, jamais aceitando fazer sessões à luz do dia ou de lâmpadas. As trombetas têm a vantagem de tornar mais elevada e retumbante a voz do ventríloquo, desde que esta seja fraca ou pouco perceptível;
- de maneira incosnciente. Pode haver médiuns honestos, dotados de faculdade de ventriloquia, que utilizem tal faculdade sem o saber, de tal modo que atribuem, de boa fé, as vozes do além. A ventriloquia inconsciente é explicada pelas leis da associação ou pela constituição psicossomática do ser humano. Com efeito, quando alguém concebe uma ideia ou uma imagem qualquer, esta tem sua repercussão no cérebro e nos músculos motores da linguagem e da mímica do sujeito. Ora, de acordo coma grande sensibilidade da pessoa, essa repercussão nos músculos pode chegar a dar origem a uma fonação ou a uma linguagem falada (e, no caso da psicografia... à linguagem escrita).
Já alguns pesquisadores quiseram demonstrar, experimentalmente, ser impossível que alguém tenha a representação mental de uma sílaba sequer sem que haja, simultaneamente, um movimento nos músculos que contribuem para articular tal sílaba!
O conteúdo das frases assim produzidas procede do consciente ou do inconsciente da pessoa ventríloqua. Quando provém dos inconsciente, o próprio médium se surpreende com os efeitos registrados, tendendo a atribuí-los, sinceramente, aos espíritos “desencarnados”.
A gravação das vozes psicofônicas torna tais efeitos independentes do respectivo médium aos olhos do grande público. A fita gravada, transportada para vários ambientes, pode ser apresentada e considerada como resultante da intervenção de seres extraterrestres ou desencarnados. Dissemina-se facilmente, então, a crença de que, realmente, os mortos assim se comunicaram com os vivos.
Um exemplo de psicofonia que ganhou fama internacional é o da sra. Leonard, relatado na obra “The Mediunship of Mrs. Leonard” (T), de Susy Smith. A sra. Leonard era honesta e respeitável sob todos os aspectos em sua vida particular e pública. Mas praticava a mediunidade, e nas sessões espíritas, inconscientemente, era ventríloqua, apresentando a voz das suas entranhas como voz do além. Muitos acreditavam ingenuamente nessa apresentação, que na verdade não passava de fenômeno psicológico envolvido em aura de mistério.
Vemos, assim, que a psicofonia nada tem de transcendental, sendo simplesmente o produto de faculdades de pessoas especialmente sensitivas, cujo inconsciente ou consciente é excitado para que falem por ventriloquia. À guisa de ilustração, seguem-se observações de Charles Richet em seu “Tratado de Metapsíquica”(espírita): “Quando as entidades se manifestam cometendo erros, dizendo ingenuidades e mostrando graves esquecimentos, é impossível supor que seja o espírito do morto que se manifesta ou que ressurge... Certamente nada nos obriga a atribuir às personalidades dos mortos os mesmos sentimentos, iguais modo de raciocinar e os mesmos juízos dos tempos em que se encontravam na Terra. As personalidades dos defuntos se encontram com ridículas afirmações, comprazendo-se em trocadilhos pueris e muitas vezes com insultos e chistes... São retalhos, fragmentos de inteligência, de inteligência medíocre. Os desencarnados esquecem as coisas essenciais para se preocuparem com minúcias que durante a vida não teriam ocupado um minuto de sua atenção. Voltar à vida para se interessar por essas coisas é mesquinho, é inverossímil. Quantas interpretações simbólicas, cheias de nebulosidades e fantasias para se subtrair à evidência de que não é a personalidade psicológica que o mesmo possuía quando vivia neste mundo! Esta arbitrariedade de afirmações nos manifesta a impossibilidade científica da identificação dos espíritos. Se a sobrevivência consiste em ter a inteligência de um desencarnado, prefiro não sobreviver!” (Traité de Métapsychique, pág. 776).
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Estêvão Tavares Bettencourt